segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

no fim da linha
do litoral
onde um braço
de mar quebra
nas pedras
e não há praia
apenas sal e areia
nas pálpebras
no fim da linha
do trilho do trem
onde carrego
a vida das ostras
nas costas
e vivas águas
de um córrego
nos calcanhares

João Lima
no fim da linha
do litoral
onde um braço
de mar quebra
nas pedras
e não há praia
apenas sal e areia
nas pálpebras
no fim da linha
do trilho do trem
onde carrego
a vida das ostras
nas costas
e vivas águas
de um córrego
nos calcanhares

João Lima
no fim da linha
do litoral
onde um braço
de mar quebra
nas pedras
e não há praia
apenas sal e areia
nas pálpebras
no fim da linha
do trilho do trem
onde carrego
a vida das ostras
nas costas
e vivas águas
de um córrego
nos calcanhares

João Lima
no fim da linha
do litoral
onde um braço
de mar quebra
nas pedras
e não há praia
apenas sal e areia
nas pálpebras
no fim da linha
do trilho do trem
onde carrego
a vida das ostras
nas costas
e vivas águas
de um córrego
nos calcanhares

João Lima
no fim da linha
do litoral
onde um braço
de mar quebra
nas pedras
e não há praia
apenas sal e areia
nas pálpebras
no fim da linha
do trilho do trem
onde carrego
a vida das ostras
nas costas
e vivas águas
de um córrego
nos calcanhares

João Lima

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Uma pessoa boa tem bons defeitos e uma pessoa má más virtudes.
aristóteles
O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; o tempo está em tudo.
Rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é; pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas, não bebendo do vinho quem esvazia num só gole a taça cheia; mas fica a salvo do malogro e livre da decepção quem alcançar aquele equilíbrio, é no manejo mágico de uma balança que está guardada toda a matemática dos sábios, num dos pratos a massa tosca, modelável, no outro, a quantidade de tempo a exigir de cada um o requinte do cálculo, o olhar pronto, a intervenção ágil ao mais sutil desnível.
O tempo sabe ser bom, o tempo é largo, o tempo é grande, o tempo é generoso, o tempo é farto é sempre abundante em suas entregas: amaina nossas aflições, dilui a tensão dos preocupados, suspende a dor aos torturados, traz a luz aos que vivem nas trevas, o ânimo aos indiferentes, o conforto aos que se lamentam, a alegria aos homens tristes, o consolo aos desamparados, o relaxamento aos que se contorcem, a serenidade aos inquietos, o repouso aos sem sossego, a paz aos intranquilos, a umidade às almas secas; satisfaz os apetites moderados, sacia a sede aos sedentos, a fome aos famintos, dá a seiva aos que necessitam dela, é capaz ainda de distrair a todos com seus brinquedos; em tudo ele nos atende, mas as dores da nossa vontade só chegarão ao santo alívio seguindo esta lei inexorável: a obediência absoluta à soberania incontestável do tempo, não se erguendo jamais o gesto neste culto raro; é através da paciência que nos purificamos, em águas mansas é que devemos nos banhar, encharcando nossos corpos de instantes apaziguados, fruindo religiosamente a embriaguez da espera no consumo sem descanso desse fruto universal, inesgotável, sorvendo até a exaustão o caldo contido em cada bago, pois só nesse exercício é que amadurecemos, construindo com disciplina a nossa própria imortalidade, forjando, se formos sábios, um paraíso de brandas fantasias onde teria sido um reino penoso de expectativas e suas dores(..)`

Trecho de Lavoura Arcaica – Raduan Nassar
Além disso quero-te, e faz tempo e frio.
Julio Cortázar

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Eu te imolei uma preciosa vítima humana,
um jovem e um velho.
Eu esfolei minha pele com facas.
Eu aspergi teu altar com meu próprio sangue.
Expulsei pai e mãe, para que tu pudesses morar comigo.
Fiz de minha noite dia e andei por volta do meio-dia como um sonâmbulo.
Derrubei todos os deuses, infringi as leis, comi o que era impuro.
Joguei de lado minha espada e vesti roupas efeminadas.
Arrebentei meu castelo fortificado e brinquei na areia como criança.
Vi os guerreiros indo para a batalha e quebrei minha armadura com o martelo.
Eu plantei meu campo e deixei as frutas apodrecerem.
Tornei pequeno o grande e todo o pequeno, grande.
Troquei meus objetivos mais distantes pelo que havia de mais próximo,
portanto estou pronto."
As Encantações, Liber Secundus, O Livro Vermelho (LIber Novus), Carl Gustav Jung - Tradução de Edgar Orth

sábado, 10 de janeiro de 2015

sombra
um tombo contra a luzpoço fora do fundo
do chão 
seu formato de dança
dentro das montanhas
não sobra, nem some
nunca está só

desenha no muro
dorme no alto
sem som
a sombra 

Fernanda Tatagiba

Afivelar bem os Cintos

o homem com a mochila a jato
que para de funcionar e cai
visto de cima;

a decolagem do avião;
o salto do paraquedas
que suga para cima
ao se abrir no ar
dando um impulso
impossível aos pés;

o mergulho na água
e a permanência prolongada
sentado no fundo da piscina;

a queda livre ao levantar da cama
ou descer de qualquer superfície,
de um trampolin
como nos desenhos
em que o circense pula
de uma altura que faz ver tudo pequeno
em uma bacia d'água minúscula
quase um balde
profundo o bastante para
fazer o corpo sumir
sem deixar rastro;

a subida do astronauta
dentro do foguete
e o momento que atinge
a gravidade zero
fazendo as vísceras
voltarem para o lugar;

a suspensão do pescoço
na corda
depois dos pés abandonarem
o banco que os sustenta;

a densidade da aterrissagem
que num toque
colide o oco com o cheio
e não os funde
apenas relembra ou revela
suas naturezas.

a imagem é pobre
ainda não é o vazio.



Vinícius Varela 
mesmo sussurrado ao pé do ouvido, qualquer "eu te amo" é como uma sirene repercutindo numa aldeia consumida pelo fogo.

Maiakovski!

domingo, 4 de janeiro de 2015

Mar Alto

Esta água é todas as águas,
sem porto, nome ou naufrágio.
Rendada de espuma ao vento,
sem dor nem contentamento.

Esta água — lugar nenhum —
é perdição sem loucura.
Nela se dissolvem mágoa,
memória, tempo, aventura.

Sem lei nem rei, sem fronteiras,
além de verbo e silêncio,
esta é a pátria procurada:
incêndio de tudo — nada´
Hélio Pellegrino a.a

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

As unhas sujas daqueles dedinhos deviam estar apertando a
moeda na linha do tiro a mãozinha aberta a moeda
estacou ficou cara a cara a moeda do pão
na roleta russa apertou perdeu
foi um tiro só
que não mata engorda



Leticia Tandeta Tartarotti 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Passeio público

Solitário moribundo
tatuado num chão de praça
crepuscular
assiste em pleno dia
ao fim da estranha dança
em que pés e pombos
se interrompem
num ruído de poeira
que se ergue
sobre escombros humanos
majestosa e indiferente.

Janina Daou

terça-feira, 15 de julho de 2014

Dorme abismo meu, os reflexos dirão
que o descompromisso é total
mas tu até em sonhos dizes que todos
estamos comprometidos que todos
merecemos salvar-nos."

Roberto Bolaño

segunda-feira, 14 de julho de 2014

ainda que um último navio
viesse pousar-me nas mãos
toda a solidão
das ilhas
e na brevíssima noite
dos mortos
rompesse límpida
a última nuvem
da saudade
ainda assim
só contigo subiria
toda a neve dos dias
até se esgotar
o vermelho
essa casa
onde mora o coração

Gil T. Sousa
Em baixo da cama, um susto acordado. O terror de entender o que temia. Vão descoberto, caixa do vazio. Vento empossado no chão preso a terra. Antes de dormir estendo a mão, varro a distancia. Depois do sono o teto, o tempo. O sonho do esquecimento. Em baixo da cama, lugar do último hospede do primeiro risco.  O tombo depois da queda. Da cama escorrega o que é pesado, a casca, o farelo da manhã. Em baixo os fantasmas escondem seus medos e as crianças fingem fugir.  Em cima, tento entender o que está por dentro.


Fernanda Tatagiba

quinta-feira, 3 de julho de 2014

“E, aquele Que não morou nunca em seus próprios abismos Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas Não foi marcado. Não será exposto Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.”
manoel de barros

terça-feira, 24 de junho de 2014

Ninguém se disse adeus, e na ausência de luz alguém está morrendo sozinho. Cada vez que não morremos parece-me que demos um passo para trás, progredimos no sentido inverso, chegamos, pois que nos levantamos para prosseguir.
(...)
A noite despencou e quebrou três estrelas"

Ana Cristina César 

domingo, 22 de junho de 2014

a poeira é o gramado do tempo

flor cinza 
esquecida
pendurada
na esquina da viga 

limpam 
por que não tem 
mais volta



Fernanda Tatagiba
tirar o medo e não colocar a coragem no lugar pode fazer as coisas serem elas mesmas, nada mais assustador


Fernanda Tatagiba
Eu acabarei, pois me entreguei sem arte a quem me saberá perder e acabar


Do Amor e Outros Demônios -  Gabriel Garcia Marques 

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Solidão

Quando estou só reconheço
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.
E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.
Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por coisa esquecida.

Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa

terça-feira, 17 de junho de 2014

As Nuvens

As nuvens são cabelos
crescendo como rios;
são gestos brancos
da cantora muda;
São estátuas em voo
à beira de um mar;
a flora e a fauna leves
de países de vento;
São o olho pintado
escorrendo imóvel;
a mulher que se debruça
nas varandas do sono;
São a morte (a espera da)
atrás dos olhos fechados
a medicina, branca!
Nossos dias brancos.

João Cabral de Melo Neto

domingo, 15 de junho de 2014

Seus canários
estavam sucumbindo como moscas
todas as manhãs
havia outro
duro
no fundo da gaiola
o veterinário disse
que era devido a bactérias
na água que estavam bebendo
mas ele próprio sabia
que era
pela maneira como estamos vivendo


Sam Shepard no Crônicas de Motel

quinta-feira, 12 de junho de 2014

O signo vem marcado, em toda a sua laboriosa gestação, pelo escavamento do
corpo. O acento, que os Latinos chamavam anima vocis, coração da palavra e matéria prima do ritmo, é produzido por um mecanismo profundo que tem sede em movimentos abdominais do diafragma. Quando o signo consegue vir à luz, plenamente articulado e audível, já se travou, nos antros e labirintos do corpo, uma luta sinuosa do ar contra as paredes elásticas do diafragma, as esponjas dos pulmões, dos brônquios e bronquíolos, o tubo anelado e viloso da traquéia, as dobras retesadas da laringe (as cordas vocais), o orifício estreito da glote, a válvula do véu palatino que dá passagem às fossas nasais ou à boca, onde topará ainda com a massa móvel e víscida da língua e as fronteiras duras dos dentes ou brandas dos lábios. 


O som do signo guarda, na sua aérea e ondulante matéria, o calor e o sabor de uma viagem noturna pelos corredores do corpo. O percurso, feito de aberturas e aperturas, dá ao som final um proto-sentido, orgânico e latente, pronto a ser trabalhado pelo ser humano na sua busca de significar. O signo é a forma da expressão de que o som do corpo foi potência, estado virtual.


Alfredo Bosi - O Ser e o Tempo na Poesia